Há uma pequena luz ali adiante. Uma pequenina luminosidade que se apresenta nos olhos daquele rapaz, deitado sobre a sua cama, sozinho em seu quarto, pensando na sua vida conturbada. Aquilo é uma lágrima rolando de seu olhar vago? Ele levanta-se, põe-se diante do espelho, e murmura:
" Vejo em meu rosto uma lágrima que cai. É o que a tristeza faz..."
Muitas iguais a esta dançam em seu rosto abatido, e ninguém enxerga. E ninguém vê porque ele as esconde, afinal, quem o ajudaria? Quem mudaria a situação na qual se acha?
"O meu sorriso forçado me distrai, mas não me satisfaz..."
Pensamentos negros passam e perpassam em sua mente, fazendo eco em sua (in)sanidade, atormentando a sua paz, a sua pouca fé na vida e no amor.
" Para que viver uma vida sem sentido...?"
E no meio da noite, quando todos em sua casa dormem o sono dos inocentes e trabalhadores , ele fecha os seus olhos cansados e doloridos, sussurra com voz trêmula a alguém que não está ali.
"Vem me buscar..."
Com toda a sua fé interior, o seu espírito clama por salvação. E, assim, ele vive o dia do seu vigésimo primeiro aniversário! Parabéns para você, nesta data (não tão) querida
Enquanto eu dormia, o Dono da Noite me visitou. Eu o vi, andando pelas sombras e pela fumaça, vindo em minha direção a passos lentos e certos. Senti medo, mas continuei ali, esperando por ele. Até que chegou ao meu quarto, sentou-se em minha cama, alisou a minha cabeça e chamou por mim. A sua voz era fria, sem emoção, sem vida; falava baixo, pauadamente, como que escolhendo as palavras que usaria para mim, o seu alvo. Eu o escutava com atenção, tremendo dos pés à cabeça, temendo que ele o percebesse. Tendo ele falado-me, foi-se embora pelo mesmo caminho por onde viera. Retornou às treves, ao seu lar de fogo eterno! E eu, pobre de mim, me vi confuso, sozinho, estranho, perdido. Marcado! Estigmatizado pelas malditas palavras e profecias do Príncipe. Me senti queimado por um fogo estranho, ainda que me parecesse, de uma hora para a outra, familiar, e tudo passou a ser encarado com outros olhos, sob um outro prisma. Os olhos... Os meus olhos tornaram-se inexpressivos, frios, distantes, frios, calculistas, frios... Só me importava com o que eu me importava e nada mais. A família, os amigos, e as pessoas em geral, já nao tinham tanta importância assim para mim...para ser sincero, nem sei se algum dia teve. Comecei a vagar pela terra, como um ser sem destino, jogado à própria sorte, em busca de algo que eu só viria a conhecer quando me deparasse com ele. Então, há dois anos, eu o achei. E eu experimentei, enfim, o que é viver! Contudo, também, aprendi a chorar, e chorar muito, por amá-lo. Numa de suas crises, ele me bateu, me ameaçou com uma faca. Uma parte de mim, e apavorou ante a presença sombria da morte olhando para mim; A outra parte, nao me pergunta por quê, implorava por aquela faca raivosa, porque desejava que todo aquele sofrimento se cessasse de uma vez por todas. Ele se foi, se foi para longe, e o seu corpo alimentou a terra. Voltei a vagar pela terra. Mas, agora, já não estava sozinho: um espectro acompanhava os meus passos, aparecia em meus sonhos, sussurrava em meus ouvidos... Então, há dois meses, ele me achou. E eu experimentei, de novo, o que é viver. Contudo, tinha alguém com quem dormir; alguém a quem esperar; alguém de quem sentir falta...a quem amar. Mas, também, voltei a chorar, e chorar muito, por amá-lo. Numa de suas muitas suspeitas, ele me bateu. Me golpeou com as mesmas mãos que me acariciam com paixão! E, assim, ele me feriu. No corpo, me feriu; na alma, me feriu. As suas palavras inflamadas e malditas, os seus xingamentos e as uas ofensas me feriram. E, enquanto ele me batia, uma parte de mim se assustou com o repentino ódio em sua face; A outra parte desejou, com força, que ele ferisse mais, que me batesse mais, que me fizesse sangrar, que me destruisse ali, naquele momento. Estava cansado de respirar, de amar, de chorar, de sofrer, de mentir... Queria , e quero, dormir, fechar os meus olhos e dormir. Me libertar desta cela de barro, onde me acho preso, acorrentado e atormentado. Quero alimentar a terra com a minha carne: já lhe tenho dado de beber com as minhas lágrimas de homem angustiado!
No meio da noite, o seu canto ouvia-se ao longe. Toda a mata parecia calar-se ao som daquele cântico misterioso, cheio de paixão e dor. Som de se chorar; música de se lembrar; canção de se amar. Lamento para lágrimas. No centro da mata, escondido pelos braços da madrugada, ouve-se o seu pranto silencioso e sofrido. Toda a floresta parece sangrar consigo: tudo é morte, nesse momento.
"As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam... Os corações viram gelo, e, depois, não há nada que os degele..."
( 'As aparências enganam', de Sérgio Natureza / Tunai ) Dia 14 de outubro de 2007, em Copacabana, Rio de Janeiro, um multidão se reune. É a Parada Gay! Em todos os cantos, vêe-se gays, lésbicas, travestis, simpatizantes. Tudo, absolutamente! Os metrôs estão sobrecarregados de passageiros, a maioria de gente maquiada, travestida, de coturnos pretos, homens musculosos... Pelas ruas de Copacabana, os carros alegóricos vão desfilando, com um monte de gente sobre eles, mandando beijinhos para a multidão, dançando ao som de tecno-alguma coisa. E a "bicharada" vai ao delírio com a visão dos boyzinhos saradaços rebolando; a comunidade lésbica endoida com as menininhas de calcinha e sutiã. Um carnaval! Todos ( ou boa parte ) saem de suas casas, ruas, cidades e Estados - talvez até de seus países - para gritar a plenos pulmões "Liberdade", "Abaixo o Preconceito" e tantas coisas mais. E todos os que ouvem respondem com sonoros "Apoiado, apoiado!" Aí, podemos ver os casais homossexuais andando de mãos dadas, abraçando os seus parceiros, beijando-os. Tudo isso publicamente, sem a menor vergonha de demonstrar o que sentem. Sem medo! A sensação de realmente fazer parte de algo é o que move cada um dos presentes, cada um dos que se dispuseram a chegar àquela concentração. Os homossexuais ( pertençam eles a qualquer grupo que seja) sentem-se tão excluídos, tão banalizados, tão ridicularizados, que, penso eu, esses eventos pró-liberdade sexual sirvam de válvulas escapatórias. Tudo é festa! Mas aí, acabam as festas, as comemorações e , supostamente, a razão para a união e confraternização dos nossos amigos...ou é o que pensa grande parte deles. O que vem a seguir? Um número absurdo de gente tira a maquiagem de seus rostos; tira, apressadamente, os shortinhos camuflados... Um número absurdo de militante, se podemos chamar assim se "exorcisa" do seu "demônio" e retorna para os seus lares, para o seu serviço, para as suas esposas... Eles fingindo que não são; sua família fingindo que não sabem... Todos, decididamente todos, se enganando com o pensamento de que são felizes! Até que chegue a próxima edição!
Com essas palavras, eu quero registrar que não sou contra a Parada Gay, ou qualquer coisa do gênero (nem poderia tbm, mas...). Sou contra o que a Parada Gay se transforma a cada ano: cada vez mais comercial, cada hora mais carnalesca, cada momento mais longe da idéia original.
Depois de um longo dia de serviço, no final de um sábado, pelos lados do Aterro do Flamengo, surge o deus Sol colorindo o horizonte, com a cor rubra da paixão e do pecado da carne, o mundo que, até então, era acinzentado. Até então, tudo ao meu redor era cor de nada, tudo cheirava a nada, tudo fedia a nada. Só monotonia. Ele, o deus Sol, chega, abrasando-se, irradiando todo o seu calor, toda a sua força esplêndida, toda a sua mágica, toda a sua feitiçaria divino-humana. Ah, quanto desejo! Ah, quão doce a sua vinda! E tudo se tornou novo e inédito. Por volta das 19hs, no fim de um dia de sábado, depois de muitas horas de serviço, ele surge, o Sol. Lá, no apartamento da rua Marquês de Abrantes, ponho-me a mirá-lo, a observá-lo, a imaginá-lo na sua mais sublime forma: Nu. Aí, ele me olha e sinto, no seu olhar, a malícia, o pedido mudo que os seus olhos incandecentes lançam sobre mim, como lava sobre a terra; me abraça, esfrega o seu corpo iluminado no meu, me beija, me revela, me desnuda, me suga, me sorve, me chupa, me seca, me molha... Quanta ação! Ele me quer, está sedento por mim: posso senti-lo Ah, bendito! E ele vem, se aproxima, se chega, e o meu corpo negro se eriça, se arrepia e o meu sexo lateja. Chega a pulsar, como o meu coração... Bum, bum, bum... Ah, maldito! E ele vem. Me agarra, me beija , me sarra, me lambe, me suga, me sorve, me chupa... Um completo rito amoroso, entre o humano e o imortal. Ele, como somente ele sabe fazer, me lava na banheira me cozinha na cozinha, me prepara na sala... me come no quarto. E como come! Pede-me lincença para entrar e eu lhe dou. E ele entra devagar, assim como se nada quisesse, vem de mansinho, de forma inócua, e cada centímetro do meu ser sente a sua força, o seu domínio, o seu calor. Desejo mais, mais, mais, ma... Deixa o meu ser, cansado, amassado. E ele sua, e nós suamos. Aí, ele, o deus Sol, esparge sobre mim a sua tempestade branca; enquanto o seu corpo místico estremece; enquanto eu me ardo, e me queimo na cama! Que dor! Contudo, agora, o meu bem foi-se embora, e foi para voltar nunca mais. Passou o tempo e já não o posso contemplar, pois o movimento giratório da Terra , que não pára um segundo, mudou as nossas vidas e levou-o para outra terra...Outro céu. Contudo, permaneço aqui, sozinho desde aquele dia trágico, sem a sua luz, sem o seu fogo...sem o seu amor. No final desse dia, vejo a Lua aparecer entre as nuvens frias do céu. Tudo ao meu redor cheira a nada , e a nada fede: só monotonia e repetição. Os meus dias voltaram à sua normalidade cinza, o meu corpo retoma a sua frieza... Somente o meu coração ainda guarda do calor daquele amor.
"O Amor, isso é sabido por todos, faz com que cometamos loucuras; a Paixão exagerada é capaz de cegar, de tirar a razão. Somos capazes de matar e de nos matar, se formos mordidos por esse demônio chamado: "Excesso". Aqui, na Eternidade, onde estou por sinal, há mais de 20 dias terrenos, foi vista uma criança chegar, acompanhada por dois seres que pareciam muito tristonhos. Decorrido um certo tempo, ouviu-se um burburinho que despertou a curiosidade dos espctros, dos desencarnados, meus irmãos. "Morte horrenda...desencarnação precoce!" Somente isso, ouvia-se em todos os cantos.
-Ora, pensei, será que esses meus amigos, ainda, se alvoroçam à azo da Morte?
Ainda com essa questão a desfilar na passarela da divagação, saí do sítio onde estav aa discutri com Quincas Borbas sobre a sua teoria, o 'Humanitismo', e desatei a correr, desatinado, em direção ao aglomerado que se formava mais a frente. Quincas, meu amigo desde a Terra, não sentiu-se tentado a acompanhar-me e, creio eu, murmurou algo como 'humanitas eternos', quando despedi-me dele, apressado. Enfim, chgeando, ofegante, ao ajuntamento curioso, perguntei a quem chegara primeiro a razão de tudo aquilo: pelo que me contaram, um jovem jornalista, que dedicava-se com excessiva paixão ao seu ofício, queria dar um "furo de reportagem", como disseram.
-Como assim, quis saber mais, repórteres, aqui, na Eternidade, Emílio? -Inacreditável, não é mesmo, Brás!
Pelo que fui informado, o tal jornalista, lá na Terra, juntamente com a sua equipe, foi destacado para cobrir um tal caso que chocara a nação brasileira: a misteriosa morte de uma criança chamada Isabella. Todos os meios de comunicação estavam voltados para esse csao...acho que o pai e a madrasta da pequena eram suspeitos de homicídio doloso. Que horror! O rapaz jornalista apaixonado lutava com os guardiões maiores, que insistiam que ele não poderia permanecer conosco, e acusavam-no de ter entrado ilegalmente no nosso meio; contudo, ele gritava, cada vez mais sonoramente:
" -Deixem-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério... -Que mistério? - indagaram os guardiões."
Percebi que os guardiões se interessavam por aquele suposto mistério, pois pediram ao moço para falar um pouco mais sobre ele. Ele começou a falar...
" -Fui vê-la; achei-a, na verdade, quase moribunda...como uma santa!"
Ao final do relato, vi - e não foi difícil ver isso - que, nos rostos de todos, estavam estampadas as imagens de Revolta, Incredulidade e Horror. O moço prosseguiu com o seu discurso, animado pela atenção geral:
-Todos lá no Brasil estão famintos por mais informações; são capazes de dar um braço por um furo de reportagem ou uma entrevista exclusiva. Então, decidi fazer algo que, decididamente, se tornaria antológico no meio jornalistico: cortei os meus próprios pulsos com uma faca, na esperança de conseguir me encontrar com a Isabella, e obter dela, com exclusividade, a identidade do assassino que tirou a sua vida. Onde ela está? Isabella! Isabella, cadê você?
Reparei que, no olhar e na fala dele, tinha um certo quê de orgulho e fanatismo que beiravam à insanidade, à irracionabilidade. Agora, nos rostos dos ouvintes, apenas uma expressão: a da Incredulidade. Ao som da revelação, pareceu que os guardiões se lembraram da sua missão e tornaram a investir na campanha de retirar aquele homem de nosso meio. Ele volta a gritar:
-Por que não posso ficar aqui? -Porque você foi o autor da tua própria desencarnação, um crime gravíssimo! -Mas...mas...eu... -O teu lugar não é conosco; ao menos, não agora.
Um quê de terror perpassou o semblante do jovem; mas ele tenta, decidido:
-Está bem: vou me retirar; mas, respondam-me, seria possível eu entrevistar a menina, rapidamente? Seria a minha glória póstuma: por essa razão eu fiz o que fiz.
Os guardiões comunicam-se entre si, estudam o pedido do rapaz, o motivo dos seus atos e lhe dizem:
-Bem ,você terá a oportunidade de realizar a tua tão desejada entrevitsa...
(Um arroubo de alegria extrema mostra-se visível nos olhos do jornalista)
-...Porém, com uma condição. -Qual seria? -Por acaso, teria trago, contigo, da Terra, algum gravador, um caderno de notas, ou algo que os valha?
A expressão na face dele é impossível de se descrever. "
Por intermédio deste médium, Brás Cubas.
É assim que desejo falar do caso "Isabella". Não conheci a menina, nem a qualquer pessoa com quem ela tivesse mantido alguma relação; contudo, sei como sofre quem a ama, quem a tinha no seu coração, pois eu, infelizmente, também, perdi a uma pessoa que era-me mais do que querida, mais do que amada. Desejo, também, através destas linhas lembrar a quem estiver lendo o que escrevo que outras inúmeras "Isabellas" deixam o nosso meio diariamente. A maioria delas não é branca; a maioria delas não tem advogados na família; nem tem um sobrenome "importado". Infelizmente, quando esses atos desumanos acontecem nas periferias brasileiras, nos becos das favelas, os meios de comunicação em geral não gasta mais do que umas poucas linhas ou poucas e porcas palavras para informar à população. O certo seria que ninguém fosse vítima de atrocidade. O certo seria que ninguém matasse ninguém por motivo algum. O certo seria que todos recebêssemos afeto, carinho, respeito, amor sincero, etc; ao invés, de balas perdidas, tiros, pauladas, preconceito. O certo seria que ninguém atirasse do 6° andar coisa, nem pessoa nenhuma! Mas, acima de tudo isso, o mais certo mesmo seria que TODA A HUMANIDADE RETORNASSE PARA O LUGAR DE ONDE JAMAIS DEVERIA TER SAIDO: OS BRAÇOS DE DEUS!
* O trecho em que em cor Verde foi extraído do livro "Memórias póstumas de Brás Cubas, de M. de Assis e encontram-se nas págs. 33/ 60 respectivamente.
Entre todas as criaturas que há sobre a face deste abismo, tua és a mais ditosa. Entre todos os seres do mundo de sangue, tua beleza reluz. Tu és santa, tu és pagã! Entre todas as almas que erram diante dos olhos meus, tu fascinas-me, com teu encanto e tua dor. Tu és única, tu és a dona! Dona do que sou, senhora de quem sou e de quem, em breve, hei de ser. Espinho de minha coroa, prego de minha cruz, ara para o meu sacrifício! As velas já se acendem, e a lua já se ergue sobre nós; tudo preparado está para o pacto maior, para que o nosso ritual se sele. Dê-me o teu corpo e, lá, abrigar-me-ei;
Conceda-me a tua vida e, aceitando-a, voltarei a viver; Ofereça-me o teu sangue e eu arranca-lo-ei naquela cama de lençóis brancos, preparada para o sacrilégio santo Tirarei, com a força do meu sexo, com a grossura do meu sexo, com o tamanho do meu sexo, as lágrimas de dor e de prazer dos teus olhos sábios, verei o teu doce salgado suor emergir de teus poros, e me satisfarei com a visão do teu corpo banhado pelo teu líquido branco. União de carne e espírito ao lugar inominável do sexo bem-feito!
Obs: Esse é um texto cheio de significação. Não é o que aparentar ser. Espero que alguém seja capaz de compreendê-lo! Dedico a você, pessoa, que desperta, em mim, os sentimentos extremos!
Nome oficial, eu não tenho, mas pode me chamar de Resto. Prazer, o que é isso? Só conheço a fome, a miséria, e o lixão da esquina onde caço sei lá o quê. Sobrenome? Acho que "Do Mundo". Resto do mundo. Eu só preciso comer, moço, preciso beber. Preciso viver! Mas não isso que ganhei da vida; não é vida. Aqui, já chegou uma história, talvez você não acredite, de que, num lugar distante daqui, existem crianças que moram em casas, comem todos os dias, dormem numa cama macia e quente... (Um sorriso amarelo e amargurado, mas, sob um certo aspecto esperançoso, aparece no rosto do Resto). ...as pessoas inventam cada coisa. Aqui, a única música que ouço é aquela que vem das armas de fogo; uma canção mortal. A bebida que se vê é vermelha como o sangue, tem cheiro de sangue, tem o augúrio de sangue. Jamais apareci numa fotografia, dizem, porque não ficaria bem. Acho que não correspondo ao...como eles disseram?...ah, sim, "biotipo" adequado. Meu lugar é nos cantos, no meio dos cães, do que é podre. Tenho fome, moço, muita fome. Não tenho nome, não tenho família, não tenho estudo, não tenho vida. Mas meu estômago me acompanha.
Te revelarei, com duas palavras, quem sou, o que faço e como vivo. Quem sou? Um poeta. O que faço? Eu escrevo. Como vivo? Apenas vivo. Sou um poeta, sim. Mesmo que não tenha sido formado pelas escolas dos homens, mesmo que não tenha aprendido todas as regras da escrita, mesmo que não conheça a simetria ortográfica, mesmo que o meu nome não ocupe os mais altos lugares. Ainda assim, sou um poeta. Sou um poeta ensinado pelas lágrimas amargas e sofridas derramadas, pelas perdas, pelas dores, pela solidão, pela decepção e pela morte, a quem tão de perto conheço. Minhas palavras não mais as mais belas, não são as mais complexas. Elas são as mais sangrentas! Elas são a minha alma sofrida, e quase desesperançada, transmutadas em letras e sons. E permaneço vivendo aqui em baixo, sorrindo, chorando vivendo e perecendo a cada pôr-do-sol. E permaneço aqui em baixo, entre o céu e a terra, esperando, aguardando...me revelando. Me revelo, à sombra, sem máscaras, sem pintura. A razão guerreia contra o coração. Meu lado negro faz-se presente nas mínimas coisas, quase imperceptível aos que não têm os olhos para ver. Contudo, nada e nem ninguém faz-me deixar de ser o que e quem sou : um poeta, um ser (quase) humano!
És a nata da criação, Criatura criada para criar, detentora da vida. És a dona de nossas cabeças, mãe dos seres viventes. És deusa! Estigmatizada pelos moralmente débeis, marcada pela hipócrita religião, queimada, como coisa qualquer, pelos "portadores do amor", filhos do Pai. Pai? Sem mãe? Homens! Teu feitiço encontra-se no teu olhar, cigana Capitu, mulher de oblíquos olhos, que trazem não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrasta para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Traiste ou não a confiança do outro, de certa forma, filho teu, embora gerado pelo ventre alheio? Ah, Madame Bovary, mulher que ama, mulher que sonha, mulher que arde-se de desejos e de remorsos, apenas seja! És a verdadeira heroína, a única legítima, sim, és tu mulher. Pobres dos que só a valorizam, quando a vêem estampando as revistas mundiais, desfilando nas passarelas. Esquecem-se esses pobres homens de que, também, és aquela mulher sem formação acadêmica, sem colares de diamantes ao pescoço, sem os vestidos e perfumes de Carolina Herrera, sem atraente beleza, sem fortunas. Lembram-se de homenagiar-te uma vez ao ano, quando, na verdade, estás aqui durante todos os dias, nos amando, nos querendo, nos ensinando, nos sustentando, nos tomando pela mão, mal dormindo à noite por nossa causa... Tanto amor, tanta dedicação...tanta desonra, mulher guerreira. Se não fosses tu, o que escreveria o poeta e diplomata, Vinícius, sobre a "obra-prima das criações de Deus"? O próprio Vinícius teria nascido, sem ti, portal da vida? Não, absolutamente! Nem Vinícius, nem Fernando, nem Drummond...nem aquele seringueiro, que "faz uma pele com a borracha do dia - todos os dias - , lá no norte do país", como escreveu em seu poema, "O Descobrimento", Mária de Andrade. Ah, as mulheres! Não, não podemos deixar de falar sobre as inúmeras de tuas filhas que nada têm a comemorar nesse dia, nem em dia algum sobre a terra, tamanha é a humilhação que passam por causa de maus tratos, agressões físicas e desrespeito da parte dos homens ( se é que podemos chamá-los assim ). Não raramente, tais "homens" não são os parentes distantes, nem os vizinhos, mas, sim, os próprios esposos, os próprios pais, padrastos com quem convivem debaixo do mesmo teto. Um dia, esses malditos serão lavadas, mãe de todos. Um dia, receberás o devido valor que mereces, e toda a excremento humano será lançado nas trevas exteriores. És a nata da criação, Criatura, criada para criar, detentora da vida, és dona de meu coração. És deusa, és humana, és a terra, o ar, a água, o fogo, és mulher! Mulher, és lenha, és fogueira, és arco e aliança. Dilúvio de sentimentos, paixões, amores, terremoto de sensualidade. És feiticeira, és faceira, divindade, verdade, mentira, meias palavras. Tu és mulher! Tu és mulher! Tu és mais do que essas palavras simples...és mulher!
"Às vezes, somos invadidos por uma sensação de que todas as coisas já nos foram apresentadas e que motivos para permanecermos aqui, já não temos. A vida perde o seu brilho, o seu cheiro, o seu calor; nos sentimos vazios, tristes, solitários, envoltos pelos apertados braços da descrença, do rancor e da desilusão. Aí, de repente, sem dizer-nos a sua origem e nem o que veio fazer, chega-nos o Amor, esse sentimento louco, irrefreável, desvairado,e incompreensível sentimento, e transforma todo o nosso universo particular. Tudo volta a ser escrito pelas mãos do universo... Nem tudo nos foi mostrado: há, ainda, muito mar para navegarmos, muitos cumes a ser alcançados, muitas barreiras para que derrubemos! A Vida, aliada ao Amor, reencontra a razão de sua da sua própria vida, reencontra o caminho oculto pelas pedras na estrada. Assim, ela subsiste: o nosso renascimento se faz. Às vezes, temos a sensação de que todas as coisas que nos apresentaram já não têm graça. Tudo é uma monotonia infinitada, todos são muitos chatos, e que motivos para irmos-nos daqui, é o que mais temos. A vida ainda sustenta o seu brilho, porém, de tão embaçado e turvo, já não nos inspira à contemplação; o seu cheiro ainda está lá, contudo, torna-se comum, medíocre e sem valor. O seu calor já não aquece. Nos sentimos cheios...porém cheios demais: precisamos reformular-nos completamente, para que não sucubamos diante de nossa própria imagem refletida. A nova perda da fé, volta à nossa vida, mas, por não ser tão nova assim, não merece muita atenção: tudo é tão monótono! Falta-nos, novamente, o Amor? Não, absolutamente. O que nos falta é alguém real para amarmos! A vida não acabou... Não serão a Tristeza, a Solidão e a Monotonia que porão fim à nossa existência... não até que aquele louco e irrefreável volta à cena do crime, não até que aquele incompreensível torne a disparar os seus rubros dardos, acertando, sem dó, sem piedade, os nossos coraçãos mortos pela vida sem vida!
Penso que qualquer coisa que eu diga seja desnecessário, após ouvir essa canção, ler a sua tradução, e entender a sua mensagem. Mas, ainda assim, desejo registrar um pouco dos meus pensamentos. Todas essas palavras dirigidas ao Bush e a todas coisas que o seu governo tem representado, expressam o quanto os governantes, os líderes nacionais, se encontram longe, realmente distantes, da realidade, do sofrimento, e da vida dos seus governados. Começam uma guerra, desnecessária (como todas as demais), irracioal, simplesmente por orgulho ferido, por puramente mostrar ao mundo o seu poder bélico, de destruição exata, precisa. Uma barbaridade! Eu adoraria, se fosse o Presidente da nação mais poderosa mundial, de iniciar uma guerra, de usar todo o poder de fogo que estiver à mão, pegar os soldados, tirá-los de sua terra, de sua família, e jogá-los num país estranho, para viverem sob o risco de morte a cada anoitecer, amanhecer...a cada piscar de olhos. Enquanto isso, permaneceria na Casa Branca, altamente protegido, vivendo minha família e eu, na mais alta mordomia... O resultado disso tudo? Morte, ferimentos, casas destruídas, fome, perturbação, infelicidade... Mas...o Sr Presidente jamais aceitaria o convite para passear pelas ruas da "além-Casa Branca", para ouvir o pranto das mães, dos órfãos, o choro insuportável das crianças... Essas atitudes só mostram o quanto há egoísmo, desrespeito, desumanidade em nossos corações...infelizmente! Fernando Pessoa, uma vez afirmou que "viver não é preciso, que necessário é CRIAR..." Creio que isso tenha de chegar ao conhecimento de muitos por aí, que têm em suas mãos o poder de destruir e matar... somente o corpo, a casa, a terra, mas que não deixa de ser mortal, a sua influência. Só não quero deixar de lembrar a todos uma coisa:
UM DIA, TODOS NÓS, FECHAREMOS OS NOSSOS OLHOS! UM DIA, TODOS NÓS ESTAREMOS DIANTE DE ALGUÉM...QUE NÃO SERÁ NENHUM PRESIDENTE DO MUNDO!
Pink - Dear Mr. President (tradução) Pink
Querido Sr. Presidente
Vamos dar um passeio comigo
Vamo fingir que somos somente duas pessoas e
Você não é melhor do que eu
E eu gostaria de te fazer tantas perguntas se pudermos
conversar honestamente
O que você sente quando vê tantos sem-teto nas ruas?
Por quem você reza todas as noites antes de ir
dormir?
O que você sente quando se olha no espelho?
Você está orgulhoso?
Como você dorme enquanto o resto de nós chora?
Como você sonha quando uma mãe não teve a chance de
dizer adeus?
Como você caminha com a sua cabeça sempre erguida?
Você poderia ao menos olhar nos meus olhos
E me dizer porque?
Querido Sr. Presidente
Você era um garoto sozinho
Você foi um garoto sozinho?
Você é um garoto sozinho?
Como pode dizer
Que nenhuma criança é deixada pra trás
Nós não somos bobos e nós não somos cegos
Eles estão todos sentados em suas celas
Enquanto você paga uma estrada para o inferno
Que tipo de pai tomaria a propriedade da prórpia
filha?
E que tipo de pai poderia odiar a própria filha se ela
fosse gay
E eu posso imaginar o que a primeira-dama tem a dizer
Você veio de um longo caminho de uísque e cocaína
Como você dorme enquanto o resto de nós chora?
Como você sonha quando uma mãe não teve a chance de
dizer adeus?
Como você caminha com a sua cabeça sempre erguida?
Pode me olhar nos olhos
Deixe-me te dizer sobre trabalho duro
Salário minimo com uma bebê a caminho
Deixe-me te dizer sobre trabalho duro
Reconstruindo sua casa depois que as bombas a levaram
embora
Deixe-me te dizer sobre trabalho duro
Construindo uma cama feita de caixas de papelão
Deixe-me te dizer sobre trabalho duro
Trabalho duro
Trabalho duro
Você naum sabe nada sobre trabalho duro
Trabalho duro
Trabalho duro
Oh
Como você dorme a noite
Como você anda de cabeça erguida
Querido Sr. Presidente
Você nunca daria uma passeio comigo
Você iria?
"...Parece uma orquestra de mosquitos, em meu ouvido, fazendo um barulho parecido assim: zum-zum-zum, que barulho esquisito... Tá tocando a noite inteira a incomodar..."
Os mosquitos são tão bonitinhos, tão engraçadinhos, gostam de fazer com que nos cocmemos. Mas, isso só parece uma coisa legal lá na música da Eliana. A realidade é diferente. Estamos sendo vítima da raça Aedes: raça forte, de sangue! A cada dia os jornais nos mostram mais um(a) coitado(a) que foi mordido e infectado pelo preto-branco; já não estou aguentando mais! Só se fala, só se mostra...nada se faz! E, quando vemos algo sendo feito, não é o bastante. Sabem quem são os maiores responsáveis por isso tudo? Não?! Pois vou contar-lhes: o governo, mas, principalmente em minha concepção, o próprio povo brasileiro. Geralmente, os que vivem em locais onde as condições de vida são quase inexistentes, onde o esgoto corre a céu aberto, onde o mato alto é quase onipresente. A culpa é nossa, sim, pois não temos educação suficiente para virarmos a garrafas de cerveja, refrigerantes e seja lá de quê mais, viradas de cabeça para baixo; pôr "colecionarmos" pneus inúteis destampados... E por aí vai. Um dia desses, assistindo ao telejornal do meio-dia, fiquei impressionado com o que vi: uma equipe de reportagem flagrou uma casa ( das inúmeras que há aos montes por aí) numa situação escandalosamente descuidada. O mato era mais alto do que o murinho que cercava a casa, havia um carrinho-de-mão quase cheio de água da última vez em que choveu, garrafas e mais garrafas espalhadas pelo terreno. A proprietária do imóvel, quando questionada sobre o carrinho-de-mão, respondeu: "Ah, sim, são as crianças que ficam brincando e o deixam por aí; eu, sempre, arrumo..." Sempre mesmo? Quando interrogada pelas garrafas no quintal: "Eu não sei explicar isso." E existe um pequeno detalhe nisso tudo: essa excelentíssima senhora já havia contraído a Dengue por três vezes! Não creio que seja complicado conhecermos o motivo, não é? Logicamente não são apenas os de menor poder aquisitivo, menos preparados intelectualmente e os que residem em comunidades carentes que contribuem para o avanço diário do surto "Aedes": os senhores da Zona Sul, ao menos nesta vez, estão no mesmo lugar que os demais seres humanos! Quantos prédios de Ipanema, Leblon, Copacabana, e tantos outros, mostrados com suas belas piscinas destapadas, caixas-d'agua semi-fechadas... Um absurdo! Depois ouvimos que o governo é quem deve ser crucificado! Obviamente, nossos governantes não devem deixar de criar campanhas de conscientização, de alerta, para que esse mal seja vencido. Mas, se formos aguardar as campanhas aparecerem nos jornais e canais de Tv para começarmos a mudar nossa atitude, nossa mente, nossa conduta... Certamente, a maioria de nós conhece algum filho de ciclano ou beltrano, ou até mesmo um de nossos parentes, que foi derrubado por esse nanico, porém relevante inimigo, Aedes. Eu, particularmente conheço. Comecei tudo isso com um trecho de uma música cantada pela Eliana ,"Orquestra dos mosquitos", porque, enquanto voltava para casa, há alguns minutos atrás, pensei nessa Dengue e essa música voltou lá do fundo do meu "baú musical". Agora, para sair do "omento infância", quero terminar com a música cantada unanimemente pelos assolados pela Dengue:
Estou num estado tão próximo do céu, tão alto, que sou capaz de ouví-lo. Mas o céu não me ouve. Dizem que há salvação e esperança, dizem que há remédio para as doenças, dizem que a morte não será eterna; mas não permanecerei aqui, esperando por essa tal redenção. Minha vida está sendo gasta e perde o seu valor a cada pôr-do-sol! Ouço falar que o amor é o que mais valioso existe, vejo o que esse tal amor é capaz de fazer. Mais como isso é possível: vejam o que acontece por aí? Sou testemunha de quanto sangue o amor nos arranca, de quanta dor nos causa, de quanto sofrimento nos traz. Mas permanecem afirmando que há esperança para mim! São as lágrimas que não me deixam secar, nesse vale de sal e podridão! Dêem-me asas e assistam a minha ascenção... E agora que minha vida terminando está, preciso que saiba: Imploro por tua ajuda...desesperadamente.
Ouvem-se, no barracão, os sons dos tambores e dos cânticos dos filhos negros de Ghandi, que saudam as suas entidades afro. Noite de batuque no terreiro, noite de celebração aos elementares, noite de agradecimento aos donos do Ynzo! Toquem o atabaque, irmãos africanos, filhos das terras tupiniquins, ofereçam-lhes suas músicas, suas danças, suas orí! São os donos dos ventos, das águas, do fogo, e da terra. Brilhantes estrelas do abismos da terra, recebam as flores que lhes dão, recebam as oferendas que lhes trazem, os seus filhos. São os donos de vossas cabeças que vêm nas asas dos ventos! Estão baixando aqui, no vosso terreiro. Cantem, cantem , cantem... "Kossi, ewê, kossi orixá..." Entoem o cântico dos caboclos, dos velhos e dos elementos!
( Ouvem-se os raios e trovoadas, o vento chega, magestoso)
Os principais chegam, dizendo: "Eu cheguei, vestido de rei. Quem me chamou?" Prostrados, de cara para a terra, os seus cavalos os recebem, cantando: "É o dono do matagal, é o Guardião do imbornal, é o Chefe da guarnição. Ele é da Casa real, ele é quem briga com o mal... Ele é o meu Capitão!"
( Mais ventania, chuva e trovoadas) "Eu cheguei, vestido de Rei..."